24.04.26
3ª Conferência Internacional UNEM-DATAGRO debate o futuro e a competitividade do etanol de milho no Brasil e no mundo
Lideranças destacam o papel do Brasil como potência agroambiental e as soluções logísticas e tecnológicas para a transição energética global

A 3ª Conferência Internacional UNEM-DATAGRO sobre Etanol de Milho, realizada na última quinta-feira (16), em Cuiabá (MT), reuniu autoridades, empresários e especialistas em torno das oportunidades e desafios da cadeia de produção do etanol de milho no Brasil. Foram mais de 1.000 participantes, 38 palestrantes e mais de 10 horas de conteúdo.
Na cerimônia de abertura, o presidente da Datagro, Plínio Nastari, enfatizou que a industrialização do milho transforma a realidade econômica, especialmente em Mato Grosso, onde o valor do grão cresce de 80% a 100% ao ser processado. Ele enfatizou que o setor impulsiona toda a cadeia produtiva, afirmando que “a produção de energia do agro alavanca a produção de alimentos”, ao fortalecer a pecuária e a produção de proteína animal, além de ressaltar que o setor de etanol de milho “tem trazido tanto progresso, principalmente pro Mato Grosso, mas para todo o Brasil”.
Na sequência, o presidente do Conselho da União Nacional do Etanol de Milho (UNEM), Eduardo Menezes Mota, apresentou projeções de crescimento, estimando que a safra 26/27 deve moer 26,8 milhões de toneladas de milho para produzir 12 bilhões de litros de etanol. Mota ressaltou o papel estratégico do biocombustível como um escudo contra a volatilidade do petróleo, declarando que “não somos mais apenas o celeiro do mundo, somos uma potência agroambiental capaz de liderar soluções para a transição energética global”.
Já Amauri Pekelman, presidente da Biosul, reforçou a liderança regional ao apontar que, atualmente, de “cada 2 litros de etanol produzido no Brasil, 1 litro vem do Centro-Oeste”. As demais autoridades convergiram ao destacar o protagonismo do Centro-Oeste, especialmente de Mato Grosso, na expansão da bioenergia e na industrialização do agro, além da importância da integração entre energia, alimentos e sustentabilidade.
A abertura foi encerrada com uma homenagem a Guilherme Nolasco, ex-presidente-executivo da UNEM, reconhecendo sua contribuição para a consolidação do setor e simbolizando o amadurecimento institucional da indústria de etanol de milho no Brasil.
Panorama do evento – UNEM e associados
O Painel 1 (Desafios e oportunidades para o crescimento do setor) contou com moderação de Plínio Nastari, presidente da Datagro, e participação de Gustavo Mariano (Inpasa), Daniel Lopes (FS – Fueling Sustainability) e Tomás Santos Cardoso (Vibra).
Na abertura, Nastari salientou o potencial de expansão do consumo de etanol no Brasil, especialmente com o aumento do uso do hidratado pela frota flex e a elevação da mistura na gasolina. “Com pequenas mudanças na participação da frota flex, o impacto no consumo pode ser expressivo”, afirmou, ao ressaltar a necessidade de ampliar a demanda diante do crescimento da produção.
Gustavo Mariano abordou o aumento do blend de etanol na gasolina e as novas fronteiras de consumo, como a região Nordeste e o mercado marítimo global, onde o etanol surge como uma solução imediata para a transição energética. Daniel Lopes enfatizou a oportunidade de utilizar o etanol no transporte pesado e na aviação (SAF), além de destacar o pioneirismo em tecnologias de intensidade de carbono negativa, como o BECCS.
Já Tomás Santos Cardoso apontou que a volta da Vibra à originação de etanol reflete a pujança do setor e a necessidade de investimentos em logística e infraestrutura, como alcoodutos, para escoar a produção do Centro-Oeste para os grandes centros consumidores e portos. Além disso, ele ressaltou a importância de novos modelos de precificação regional e de instrumentos de gestão de risco para dar segurança ao crescimento contínuo da cadeia.
A expansão do mercado de DDG e DDGS no Brasil, impulsionada pelo avanço do etanol de milho, foi o tema central do Painel 2 do Congresso Internacional UNEM Datagro sobre Etanol de Milho.
A abertura foi conduzida por Andréa Veríssimo, diretora de Relações Internacionais e Comunicação da UNEM, que sublinhou o papel estratégico dos coprodutos na transformação da cadeia agroindustrial. Segundo ela, o debate reflete uma agenda cada vez mais relevante para produtores, indústria e mercado internacional, ao conectar geração de valor e inserção global. “Estamos falando de temas que pulsam no coração da nossa agroindústria, mostrando como a agregação de valor transforma toda a cadeia produtiva”, afirmou.
Ao apresentar o panorama do setor, João Otávio de Assis Figueiredo, Head de pecuária da Datagro, ressaltou que a expansão do etanol de milho tem caminhado de forma integrada com a intensificação da pecuária brasileira. O país já destina cerca de 35% da produção de carne bovina ao mercado externo, o que exige maior eficiência produtiva e acelera a adoção de sistemas como confinamento, semiconfinamento e tratamento intensivo a pasto (TIP).
Esse movimento já se reflete nos números: o volume de animais confinados dobrou desde 2018, alcançando cerca de 10 milhões de cabeças, enquanto aproximadamente 77% dos animais abatidos recebem algum nível de suplementação alimentar. Para Figueiredo, esse cenário amplia de forma consistente o espaço para o uso de DDG/DDGS na nutrição animal. “A integração entre pecuária e etanol de milho é uma das principais molas propulsoras para o aumento da produtividade e da competitividade do setor”, afirmou.
A perspectiva de aumento acelerado da oferta também foi citada por Pedro Veiga, gerente global de Tecnologia de Bovinos de Corte da Cargill Animal Nutrition. Segundo ele, o desafio não está apenas na produção, mas na capacidade de absorção do mercado.
Veiga apontou que o consumo não deve se limitar ao confinamento tradicional, sendo fundamental ampliar o uso em sistemas a pasto e em outras fases da produção, como recria e cria. Ele também ressaltou a adequação do DDGS às condições tropicais brasileiras, especialmente por favorecer a digestibilidade da fibra em dietas baseadas em pastagem. “Não há dúvida de que haverá uma explosão na oferta de DDG e DDGS no Brasil — a questão é como vamos consumir todo esse volume”, disse.
Apesar dos avanços técnicos, o executivo reforçou que a decisão no campo segue sendo econômica. “No final das contas, o que define a adoção é a rentabilidade”, acrescentou.
O painel também abordou a crescente inserção internacional do produto brasileiro. Andréa Veríssimo apresentou os avanços do programa Brazilian Distillers Grains, desenvolvido em parceria com a ApexBrasil, que tem estruturado a presença do país no mercado externo e apoiado a abertura de novos destinos.
Andréa pontuou que a iniciativa vai além da promoção comercial e atua na construção de mercado de forma estruturada, com ações de inteligência, presença internacional e relacionamento com compradores. Segundo ela, o projeto nasceu da necessidade de posicionar o DDG/DDGS brasileiro como uma categoria reconhecida globalmente.
“O programa foi desenhado para abrir mercado, entender a demanda internacional e posicionar o produto brasileiro com identidade própria”, explicou.
Ela ressaltou que o trabalho inclui participação em feiras internacionais, missões comerciais, rodadas de negócios e ações de imagem com importadores e formadores de opinião. Além disso, o projeto tem contribuído para mapear exigências técnicas, padrões de qualidade e oportunidades em diferentes regiões do mundo.
“A gente não está apenas promovendo produto — estamos construindo uma nova agenda de exportação para o setor”, afirmou.
Por fim, outro tema foi a recente entrada do DDG/DDGS brasileiro no mercado chinês. Em rápida participação por vídeo, Freek Boelen, da Wilmar International, apontou o potencial dessa relação, ressaltando que o produto brasileiro chega em um momento oportuno para atender à demanda da indústria de ração na China. “O DDGS combina energia e proteína e pode se tornar um componente importante para o mercado chinês, especialmente com uma oferta estável e confiável”, afirmou.
O Painel 3 (Sinergia entre o etanol de cana e milho) contou com moderação de Marcos Orozimbo (ALD Bioenergia) e participação de Mauro Matoso (BNDES), Bruno Vanderlei de Freitas (Datagro) e Renata Fernandes (ICM). A discussão focou na complementaridade entre as duas cadeias produtivas, observando que a integração permite otimizar a infraestrutura industrial, garantir a oferta de biocombustível durante todo o ano e agregar valor ao milho de segunda safra.
Mauro Matoso ressaltou o papel do BNDES no financiamento de projetos flex e de plantas pioneiras, enfatizando que a produção conjunta une a alta produtividade da cana com a capacidade do milho de operar continuamente e gerar coprodutos como o DDG.
Bruno Vanderlei de Freitas apresentou dados sobre a evolução do mercado, apontando que o etanol de milho já representa mais de 25% da demanda nacional do grão, reduzindo a sazonalidade de preços e fortalecendo a segurança energética. Ele também abordou o potencial do SAF (combustível sustentável de aviação) e os desafios logísticos para a expansão do setor.
Já Renata Fernandes enfatizou a importância da tecnologia e da eficiência energética, ao apontar que as plantas flex devem ser projetadas para suportar variações de mercado e maximizar o retorno por grão processado. Ela reforçou que a escolha de tecnologias comprovadas e modulares é essencial para garantir a longevidade e a competitividade dos investimentos no longo prazo.
A aplicação de tecnologias e o aprimoramento das operações dentro das biorrefinarias foram o foco do Painel 5 (Tecnologia da produção).
Assim como no Painel 2, a mediação foi conduzida por Andréa Veríssimo, diretora de Relações Internacionais e Comunicação da UNEM, que reforçou a importância das operações em um cenário de expansão do setor. Para ela, o avanço da produção exige um nível crescente de precisão dentro das plantas. “Se quisermos ir além, precisamos olhar para os detalhes tecnológicos e para a eficiência dos nossos processos produtivos”, afirmou.
Ao longo do painel, ficou claro que o desafio atual vai além do aumento de volume: trata-se de elevar o desempenho com melhor aproveitamento de insumos, redução de custos e maior geração de valor.
Abrindo as apresentações, Gustavo Guedes, diretor de Vendas para a América Latina da Phibro Animal Health, enfatizou o papel da automação e da integração de soluções na rotina industrial. Na avaliação do executivo, o diferencial está no controle mais preciso das operações. “A automação garante que os produtos sejam utilizados na dose certa, no momento certo, evitando desperdícios e aumentando a eficiência do processo”, explicou.
Entre os resultados observados estão a redução no consumo de vapor, menor necessidade de limpeza de equipamentos e eliminação de gargalos produtivos. Guedes também chamou atenção para um ponto estrutural: a escassez de mão de obra. Nesse contexto, a adoção de tecnologias permite direcionar as equipes para atividades mais estratégicas.
Na sequência, Diogo Torres, gerente comercial e de marketing da Lallemand Biofuels & Distilled Spirits, apresentou uma alternativa para ampliar a produção a partir de ajustes operacionais, com foco na redução do tempo de fermentação. A estratégia, segundo ele, possibilita elevar a capacidade produtiva sem a necessidade de novos investimentos.
“Quando reduzimos o tempo de fermentação, conseguimos processar mais bateladas ao longo do ano, aumentando a produção sem despesas de capital”, afirmou.
A redução de 55 para 45 horas pode resultar em ganhos expressivos de volume e receita, além de melhorar a diluição dos custos fixos. Torres ponderou, no entanto, que a implementação exige rigor técnico para evitar perdas. “Com planejamento adequado, é possível não só preservar, mas ampliar a eficiência da conversão.”
A discussão sobre rentabilidade ganhou nova dimensão com a contribuição de Amanda de Souza Biscegli, líder regional da IFF, ao trazer o papel crescente dos coprodutos na composição de margem das usinas.
Na leitura da especialista, o setor vive uma inflexão importante na forma de capturar valor. A margem não é monoproduto”, afirmou. Ela apontou que o óleo de milho ainda apresenta um potencial relevante a ser explorado. Atualmente, a extração média gira em torno de 19 a 20 quilos por tonelada de milho, enquanto o limite teórico se aproxima de 35 quilos.
“Esse intervalo representa uma oportunidade concreta de ganho. Óleo não extraído é receita perdida”, disse.
Amanda também observou que avanços em biotecnologia e no controle das etapas industriais já permitem melhorias consistentes na extração, ampliando a contribuição dos coprodutos para a rentabilidade.
Encerrando o painel, Rafael Piacenza, gerente de Marketing para Bioenergia da Novonesis, trouxe à discussão o etanol de sorgo como alternativa para expansão regional da produção.
Segundo ele, o uso dessa matéria-prima pode viabilizar operações em áreas onde o milho apresenta menor competitividade. “O sorgo pode levar o etanol para onde o milho não chega”, afirmou.
Apesar das diferenças em relação ao milho, como menor teor de óleo e maior variabilidade na composição, Piacenza observou que avanços recentes já aproximam o desempenho das duas culturas. Ainda assim, reforçou a necessidade de análise criteriosa da matéria-prima. “Não basta saber comprar, é preciso saber o que se está comprando”, disse.
O debate também abordou os impactos dessas mudanças no perfil dos coprodutos, com destaque para possíveis alterações na composição do DDG, o que pode abrir novas oportunidades de mercado.
Ao final, os participantes convergiram em um ponto central: a tecnologia se consolida como elo entre desempenho econômico e sustentabilidade. A melhoria no uso de recursos, aliada à intensificação dos processos, permite ampliar a produção sem expansão física, reduzindo impactos ambientais.
O painel evidenciou que o futuro das biorrefinarias passa pela integração entre biotecnologia, operações e qualidade da matéria-prima em um modelo produtivo mais eficiente, competitivo e alinhado às demandas da transição energética.
O Painel 6 (Avanços na Logística de Distribuição) contou com moderação de Edeon Vaz Ferreira (Movimento Pró Logística/Aprosoja Mato Grosso) e participação de Cidinho Santos (Nova Rota do Oeste), Fernando Dihel (Ultracargo) e Luiz Antonio Pagot (Perotto & Pagot). A discussão focou nos desafios e oportunidades da infraestrutura logística para o escoamento do etanol, sublinhando que a eficiência nos modais de transporte é fundamental para garantir a competitividade do setor e permitir que a produção do Centro-Oeste acesse mercados deficitários e o mercado internacional.
Fernando Dihel ressaltou a importância da multimodalidade e dos investimentos em terminais estratégicos, como o projeto de desvio ferroviário no Porto de Santos e o corredor de Vila do Conde, enfatizando que a infraestrutura deve acompanhar o ritmo de crescimento do agronegócio para evitar gargalos que elevem os custos operacionais.
Luiz Antonio Pagot abordou a necessidade de um planejamento de longo prazo e de novos modelos de financiamento para a ampliação da capacidade rodoviária e ferroviária. Ele apontou o aumento recente nos custos de frete e defendeu soluções inovadoras, como o uso de etanol em motores de navios de longo curso, o que poderia gerar uma demanda adicional de milhões de metros cúbicos do biocombustível nos próximos anos.
Já Cidinho Santos enfatizou o papel das concessões rodoviárias na melhoria da segurança e fluidez do tráfego, apresentando os avanços nas obras de duplicação da BR-163 pela Nova Rota do Oeste. Ele também destacou o potencial de projetos estruturantes, como o alcoduto ligando Sinop a Paulínia, que promete transformar a logística de distribuição de biocombustíveis no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, reduzindo custos e aumentando a segurança energética.
Assessoria de Comunicação – Unem